sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Aventar

Aventar


Contra-semântica, co-adopção e contra-senso

Posted: 07 Nov 2014 12:00 PM PST

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Mark Rothko, Entrance to Subway [Subway Scene],1938, Collection of Kate Rothko Prizel (http://1.usa.gov/13sD0jg)

I try to deny myself any illusions or delusions, and I think that this perhaps entitles me to try and deny the same to others, at least as long as they refuse to keep their fantasies to themselves.

Christopher Hitchens

***

Ao ler “Implementar as ações [sic] necessárias à harmonização gráfica da língua portuguesa e da terminologia técnica, nos termos dos acordos estabelecidos”, na página 59 do documento estratégico orientador Agenda para a Década (Agenda para a Década ou Agenda pára a Década?), fiquei a matutar naquilo: “harmonização gráfica da língua portuguesa”.

“Harmonização gráfica da língua portuguesa”?

Interceptar?

“Harmonização gráfica da língua portuguesa”?

Aspectos? Perspectiva? Concepção? Facções? 

“Harmonização gráfica da língua portuguesa”?

Excepcionais convertido para excecionais? Percepção convertido para perceção? Aspecto  convertido para aspeto? Aspectos convertido para aspetos?  Perspectiva convertido para perspetiva? Perspectivas convertido para perspetivas? Concepção convertido para conceção? Respectivas convertido para respetivas? Respectivos convertido para respetivos? Confecções convertido para confeções? Receptivos convertido para recetivos? Ruptura convertido para rutura? Receptiva convertido para recetiva? Facções convertido para fações? Receptividade convertido para recetividade? Respectivamente convertido para respetivamente? Receptor convertido para recetor? Infecciosas convertido para infeciosas? Excepcional convertido para excecional? Recepção convertido para receção? Rupturas convertido para ruturas?

“Harmonização gráfica da língua portuguesa”?

“Harmonização gráfica”?

“Da língua portuguesa”?

Depois de lida a Agenda para a Década (Agenda para a Década ou Agenda pára a Década? — a dúvida mantém-se), debrucei-me sobre o texto de Isabel Moreira É assim como fazer um exame de teologia para exercer sexologia e dei por mim a reflectir acerca de mais este exemplo de alguém que deixou de adoptar o Acordo Ortográfico de 1990 e que muito provavelmente ainda não sabe.

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Nem me refiro ao excelente ‘Outubro’ que surge no texto. Aquilo que grafemicamente mais me agrada, por diversos motivos, é a omnipresença do "Contra-semântica", no título da coluna de Isabel Moreira, no Expresso — muito naturalmente, regressei ao episódio da *co-adoção e creio que estaremos todos efectivamente em condições de detectar um padrão estável: há quem simultaneamente consiga adoptar e não adoptar o AO90.

Recordando que o Acordo Ortográfico de 1990 é um documento com 21 bases (sim, 21 bases), isto é, não se restringe à base IV e à supressão de consoantes a torto e a direito (grafar 'subjetivo', 'proteção' e 'lecionar' não chega), lembro igualmente a existência da obscura e aparentemente críptica base XVI — já para não referir a base XIX.

Relembrando que Isabel Moreira participou e interveio na Audição Parlamentar Nº 122-CECC-XII e que insistiu (*)

o Acordo Ortográfico incide apenas sobre a ortografia, visando tão-somente regular qual a grafia de uso oficial e estabelecida como padrão para efeitos de harmonização da escrita do Português, mantendo-se a pronúncia e o uso das palavras inalteráveis, bem como a plena liberdade individual de utilização da grafia que pretender por parte de cada cidadão,

arrisco aventar (excelente verbo) que a Autora porventura preferiria uma correcção no final do parágrafo que citou: onde se lê “plena liberdade individual de utilização da grafia que pretender”, dever-se-ia ler “plena liberdade individual de utilização das grafias que pretender”.

Exactamente.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

(*) Parecer sobre a Petição n.º 259/XII/2.ª, p. 6.

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The author [Christopher Hitchens]  violates the New York State Vehicle and Traffic Law's "feet must be on pedals" rule. fine: $100. Photographs by Christian Witkin. (http://vnty.fr/1tQ8WYE)


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O que me salva

Posted: 07 Nov 2014 09:00 AM PST

A bem da Humanidade, só saio de casa depois de tomar café. Hoje a Humanidade correu um grande risco, e nem chegou a sabê-lo, porque eu decidi ir tomar o pequeno-almoço… (rufo de tambores, por favor) ao sítio a que chamam "o pão-quente". Ora, esta operação tem a sua complexidade porque implica descer as escadas de casa, andar uns duzentos metros, cruzar-me com vários indivíduos, esperar pelas luzes verdes de semáforos, entrar, por fim, no sítio a que chamam "o pão-quente", sentar-me tão longe quanto possível da Humanidade presente e pedir o desmedido luxo calórico do menu "croissant e meia-de-leite".

Àquela hora, a Humanidade resumia-se a sete velhotes que alternavam a atenção entre o mergulho cauteloso da torrada no galão e o programa da manhã da RTP1. Entre observar as manchas de gordura que ficam a boiar à superfície do galão e o programa da manhã, eu sei o que preferia e não era a RTP-1, mas não tinha escolha, porque ninguém desliga a televisão nestes sítios e porque eu abomino essa prática do mergulho.

No programa da manhã, decorria uma animada sessão de "jogo do galo" e as pessoas do público agitavam os cotovelos como se fossem galináceos, não sei se para dar sorte ao concorrente se para animar "os telespectadores lá em casa". Fosse o que fosse, àquela hora, e sem a terapêutica dose de cafeína que nos torna indulgentes, ver aquele grupo de dementes a agitar as asas enquanto um demente "lá em casa" jogava o jogo de galo com outra demente "apresentadora" e saber que esta bosta é o serviço público de televisão que poderia e deveria ser outra coisa, aproximou-me perigosamente do limiar de segurança.

Por sorte, apareceu o empregado com uma meia-de-leite adequadamente muito escura e um croissant insultuosamente cru, vítima daquela mania portuguesa de "tirar antes do forno para poupar na luz". Quando reclamei ao empregado, ele respondeu: "Não está cru, está húmidozinho". Se eu tivesse uma kalashnikov, o sítio a que chamam "o pão-quente" seria agora conhecido como o sítio onde houve a chacina.

Um homem acabado de entrar tentava derrubar a porta do quarto de banho, apesar dos gritos que chegavam do outro lado da porta. Foi precisa a intervenção do empregado para que a criatura alcançasse o significado de "está ocupado". Quando o ocupante saiu, vinha a apertar a braguilha com discretíssimas sacudidelas do fecho, e foi saudado pelo outro com afectuoso reconhecimento "Eras tu que estavas lá, meu paneleiro?"

E então, ainda antes de levar o primeiro sorvo de café à boca, eu tive de reconhecer, uma vez mais, que antes do primeiro café eu sou de tendência extremista fascistóide, e que só a cafeína garante a minha integração na sociedade, e que se não fosse ela eu já teria "dado cabo disto tudo", porque "isto só deitando tudo abaixo", e "e com este povo não vamos lá".

E que é só à medida que o dia avança, e eu vou nutrindo o instável equilíbrio do meu corpo com cafeína, que irrompem as minhas preocupações sociais, a minha capacidade de empatia, a minha preocupação com os direitos humanos, o paz, o pão, a habitação. E, inevitavelmente, quanto mais cafeína eu bebo mais me aproximo da esquerda radical, quadrante onde muitas vezes acabo o dia, com uma pálpebra aos saltos, uma ou outra taquicardia, e discursos cruzados por relampejantes "as ruas são nossas! o povo é quem mais ordena! isto só lá vai à bomba!". No dia seguinte, volta tudo ao começo.

Lá bebi a meia-de-leite, ainda pedi mais um café curto, e quando saí para a rua já estava a entrar naquele estado de benignidade que permite saudar os conhecidos, entrar no quiosque da esquina, ir a correr atrás da mãe que não viu o puto lançar um sapato borda fora do carrinho.

Nos dias em que atino com a dose, e o equilíbrio de cafeína alcança o seu ponto ideal, chego mesmo, vejam bem, chego mesmo a ser simpática.

Foto: Paolo Pellegrin

Filed under: crónicas Tagged: café, Cafeína, dependência

Não acredito que seja verdade

Posted: 07 Nov 2014 08:02 AM PST

Deve ser invenção jornalística, o PS não é um partido que diga uma coisa na oposição e se prepare para fazer outra no governo. Não após ter criticado Hollande, não pode ser, isto só pode ser mentira…


Filed under: curtas Tagged: economia

E uma Superbock por favor!

Posted: 07 Nov 2014 08:00 AM PST

Pires dos Tremoços

Esta cerveja, tremoços e imagem foram encontrados n’Uma Página Numa Rede Social. Uma página sempre atenta!


Filed under: política nacional Tagged: parlamento, pires de lima, Superbock, tremoços

Muito Obrigado. Volte Sempre.

Posted: 07 Nov 2014 06:01 AM PST

pires_de_lima_aventarA gerência agradece a preferência.


Filed under: política nacional Tagged: humor, pires de lima

Próximo do teto da meta/estoure o teto da meta/superar o teto da meta

Posted: 07 Nov 2014 04:57 AM PST

O ‘teto da meta’. Hoje, na Folha de S. Paulo. Ah! E ‘respectivamente’. Exacto: ‘respectivamente’, sim, mas só para alguns.


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Provavelmente o pior eurodeputado

Posted: 07 Nov 2014 03:44 AM PST

PT

(fusão de duas crónicas de cariz local publicadas no diário As Beiras a 18/9 e ontem 6/11)

Durante a última legislatura, o trabalho da eurodeputada do distrito de Coimbra, Marisa Matias, recolheu elogios da direita à esquerda – eleita melhor eurodeputada na área da saúde pelos restantes eurodeputados – pelo empenho e qualidade do seu trabalho no Parlamento Europeu. Nesta legislatura outro eurodeputado do nosso distrito, Marinho Pinto (foto do site do PE), está à beira de bater a proeza de Paulo Portas que em 1999 depois de eleito permaneceu apenas três meses no Parlamento Europeu. Marinho vai deixar o seu lugar a um segundo eurodeputado impreparado do MPT, sem qualquer trabalho de casa reconhecido sobre políticas europeias. Para quem se candidatou com a missão de dignificar a política, começa bem…
Como muitos, considero que se Marinho Pinto é o nosso populista de serviço, estamos apesar de tudo bem melhor servidos que outros países onde as formas de populismo oscilam entre a xenofobia e a palhaçada, entre Nigel Farage e Grillo. Marinho tem intervenções pertinentes sobre temas como a magistratura e a justiça, capacidade argumentativa indubitável, mas para construir um programa político é necessário muito mais do que eu e o meu ego, é preciso um imenso trabalho de equipa, é necessária coerência, que suas as tiradas marialvistas e mal-educadas pouco ajudam. A grande questão é se o partido que pretende formar para alimentar o próprio e insaciável ego ainda conseguirá enganar muitos eleitores.
Como não minimizo o populismo e porque nas próximas eleições no distrito de Coimbra teremos no nosso boletim de voto Marinho e Pinto a encabeçar a lista do partido imaginado pelo próprio ego, convém conhecermos mais algumas proezas deste eurodeputado.
Segundo um observatório independente, Marinho e Pinto é o eurodeputado português mais faltoso, ocupando o 695º lugar na classificação da assiduidade entre a totalidade dos 751 eurodeputados. Particularmente reveladora é a falta de Marinho e Pinto à sessão em que se votou a proposta do grupo parlamentar que integra o Bloco de Esquerda e o PCP que visava o corte de salários e de subsídios dos eurodeputados. Recorde-se que durante um número populista realizado recentemente, Marinho e Pinto considerou o salário dos eurodeputados "vergonhoso" e "escandaloso". Entre as palavras e os actos, valem os actos.
Em recente sessão organizada pelo seu novo partido que decorreu em Oeiras, a intervenção de Marinho e Pinto sobre o estado da justiça, a Europa e o combate à corrupção foi aplaudida presencialmente por Isaltino Morais, ainda em liberdade condicional por branqueamento de capitais e fuga ao fisco…
Viva o Populismo!


Filed under: política nacional Tagged: coimbra, Diário As Beiras, europa, parlamento europeu, populismo

Luxembourg Leaks: uma história de gatunagem legal

Posted: 07 Nov 2014 02:00 AM PST

(O esquema de evasão fiscal resumido em 3:10 minutos de boa animação)

A organização não-governamental Transparência Internacional revelou na passada Quarta-feira um relatório sobre a transparência na actividade das 124 maiores multinacionais do planeta. A avaliação foi feita com base em 3 critérios: transparência financeira, transparência organizacional e políticas anti-corrupção. E se os resultados como um todo não surpreendem, não deixa de ser surpreendente, verificar que petrolíferas como a americana Exxon Mobil ou a sua parceira estatal russa Rosneft, ou bancos predadores como a JPMorgan Chase estão melhor colocados neste ranking do que a Apple, a Google, a Canon ou a Walt Disney. A Walt Disney? Porra! Nem as crianças estão a salvo destes gangsters financeiros…

Por falar em transparência financeira, o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) tornou ontem pública uma investigação internacional de larga escala na qual estiveram envolvidos 80 jornalistas de 26 países e que durou cerca de 6 meses. Baptizada como "Luxembourg Leaks", esta investigação aponta o Luxemburgo como centro de um esquema de evasão fiscal, ironicamente legal, onde 343 multinacionais firmaram acordos fiscais secretos com o governo do então primeiro-ministro e actual presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker, que equivalem a perdas na ordem dos milhares de milhões de euros de receitas fiscais para os Estados nos quais estas empresas estão sediadas. De notar que a legislação luxemburguesa que permite estes esquemas foi assinada precisamente por Juncker, esse hipócrita que sempre defendeu que o seu país não era um paraíso fiscal e que na sua tomada de posse à frente da Comissão Europeia teve a distinta lata de apelar à transparência financeira no seio da união.

Indignada com esta revelação, PricewaterhouseCoopers (PwC) – sim essa mesma que na semana passada contratou o director e o director adjunto da supervisão do Banco de Portugal depois de conseguir, sem concurso, alguns contratos no âmbito da supervisão precisamente com o Banco de Portugal – acusou o ICIJ de ter baseado a sua investigação em informação roubada e antiga e apela à acção das autoridades. Ou não tivesse sido a própria PwC a mediar estes esquemas de evasão fiscal. Fugir aos impostos? Tudo bem? Investigar e descobrir que milhões de contribuintes estão a ser lesados em valores obscenos é que não. Institucionalize-se a gatunagem!

Não era suposto que as instituições europeias fossem notificadas sobre estes acordos? E os governos dos estados lesados, sempre tão próximos destes “mecenas”, assobiaram para o lado enquanto as populações que os elegeram eram pura e simplesmente roubadas? E esse grande vulto da política internacional, recentemente comparado por Cavaco Silva a Jacques Delors, onde estava ele enquanto tudo isto acontecia? Bruxelas é já ali ao lado, como é que Durão não deu por ela? Serão todos estes intervenientes cúmplices nestes esquemas? Claro que não, isso é teoria da conspiração. A culpa é dos europeus que andam a viver acima das suas possibilidades. Austeridade para cima deles!


Filed under: economia Tagged: evasão fiscal, Fraude, ICIJ, Jean-Claude Juncker, Luxemburgo, multinacionais, PwC, Transparência Internacional

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