quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Aventar

Aventar


Cole Porter não morreu há 50 anos

Posted: 15 Oct 2014 01:00 PM PDT

Cole_Porter

Dizem as efemérides do dia que Cole Porter faleceu a 15 de Outubro de 1964. Uma parte sim. A outra, enquanto ouvirmos, enquanto houver músicos, enquanto gostarmos de música, não morre.

Deixo-vos uma mistura de versões de uma das suas canções que mais amo, Miss Otis Regrets, recuperada de um velho podcast do tempo em que fazia podcasts. Bette Midler, Nat King Cole, Bryan Ferry, Nancy Wilson & Cole Porter, Ella Fitzgerald e Kirsty MacColl & The Pogues ficam aqui a explicar que, enquanto houver músicos, Cole Porter é eterno.


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Contra o Orçamento do Estado para 2015

Posted: 15 Oct 2014 12:00 PM PDT

É um orçamento evidentemente de rigor  — Miguel Macedo  

 

Evidentemente.

Acerca do Orçamento apresentado às Cortes, em 1836, Francisco António de Campos, ministro da Fazenda no Governo de José Jorge Loureiro, de 18 de Novembro de 1835 a 20 de Abril de 1836 – além de autor quer de A lingua portugueza é filha da latina, quer da primeira tradução portuguesa das Metamorfoses ou O Burro de Ouro de Apuleio (nas palavras de Costa Ramalho, "uma tradução digna, ainda hoje, de ser lida")–, escrevia o seguinte:

fac

Hoje, como acabámos de saber, foi dado mais um passo acelerado para a nossa ruína e verifica-se que, desde a proposta de 2012 (“em Outubro de 2011, Passos Coelho apresentou o seu primeiro Orçamento anual, o que passaria a vigorar em 2012“), a acção do tempo não foi reparadora.

Espero que António Costa mantenha a sensata decisão de votar contra a proposta que o Governo entregou há pouco na Assembleia da República. Efectivamente, como previsto ontem por Heloísa Apolónia, o Orçamento do Estado para 2015 é um "Orçamento do Estado da continuidade". É verdade que Apolónia termina a frase com "da austeridade", mas poderia perfeitamente ter adoptado outra perspectiva e rematado com "[dos] ilegíveis garatujos confusos" – exactamente, os "ilegíveis garatujos confusos" do Governo, como os daquele "médico céptico" (sim, 'céptico') do Fado Alexandrino de António Lobo Antunes.

Temos, desde 2012, "ilegíveis garatujos confusos" nas propostas de Orçamento do Estado que o titular da pasta das Finanças (Gaspar, em 2012 e 2013; Albuquerque, em 2014) entrega à presidente da Assembleia da República. Continuo sem perceber o porquê de essa proposta continuar a ser recebida com um sorriso institucional, em vez de imediatamente rejeitada, porque ortograficamente inadequada e particularmente confusa. Contudo, esse é um problema meu e, como dizia Helmut Schmidt, "aber auch wenn meine persönlichen Empfindungen nicht so wichtig sind".

Debrucemo-nos, então – depois dos desastres de 20122013 e 2014 –, sobre alguns dos aspectos mais relevantes do cataclismo (infelizmente, as inundações estão na moda) de 2015:

Aquisição líquida de activos financeiros (excepto privatizações) → p. 108;

total da despesa no âmbito de projectos → p. 116;

Os restantes valores respeitam apenas a projetos ativos → p. 116;

Na verdade, a população em idade ativa permanece como o grupo etário com maior peso na população total, no entanto, essa proporção vai diminuindo ao longo de todo o período de projecção → p. 202;

 

Despesa Efectiva excluindo transf. do OE p/ SFA’s → p. 117;

decréscimo de receita efetiva → p. 75;

 

a reafectação do financiamento para os setores → p. 229;

reafetação de recursos da estrutura produtiva dos sectores → p. 23;

 

medidas de caráter sectorial → p. 169;

produtividade a nível setorial → p. 222;

vasto conjunto de medidas sectoriais → 126;

ajustamentos nas medidas setoriais → p. 38;

 

Investigação científica de carácter geral → p. 142;

medidas de caráter transitório → p. 36;

 

Habitação e serviços colectivos → p. 132;

Habitação e Serviços Coletivos → p. 163;

A redução do prazo de caducidade e de sobrevigência das convenções colectivas pretende promover o desenvolvimento e aprofundamento dos mecanismos de negociação coletiva → p. 223;

 

Sistema Eléctrico Nacional → p. 162;

destinado ao sistema elétrico nacional → p. 230;

centros electroprodutores → p. 242;

 

Impostos indirectos → p. 74;

impostos indiretos → p. 76;

 

Impostos directos → p. 74;

Impostos diretos → p. 76;

 

é projectada uma diminuição da população → p. 201;

Em resultado das tendências projetadas → p. 203;

projectando-se que esse valor → p. 201;

projetando-se uma diminuição → p. 202;

 

Objectivo (componente da despesa /receita) → p. 214;

Permanece o objetivo de concluir → p. 169;

 

identificar aspectos a melhorar → p. 228;

nos aspetos fundamentais → p. 18;

 

Projecto do Orçamento do Estado → p. 245;

projeto do Hospital Lisboa Oriental → p. 64;

 

Direcção-Geral do Tesouro e Finanças → p. 66;

Direção-Geral do Tesouro e Finanças → p. 249;

Direção-Geral das Actividades Económicas → p. 249;

 

Valor Acrescentado Bruto a Custo de Factores → p. 258;

diversos fatores → p. 89;

 

Segurança e acção social → p. 132;

Segurança e ação social → p. 149;

 

Protecção do meio ambiente e conservação da natureza → p. 132;

regime de proteção social → p. 99;

 

Execução ajustada de situaçoes [sic] excepcionais → p. 85;

um crescimento excecional → p. 121;

 

Passagem da Ótica de Contabilidade Pública à Ótica de Contabilidade Nacional → p. 102;

Óptica da Contabilidade Nacional → p. 189.

 

E os clássicos:

Sublinha-se o fato de o valor previsto → p. 105

e

O programa SIMPLIFICAR, adotado pelo Governo na sequência da Resolução da Assembleia da República n.º 31/2014, prevê o envolvimento das partes relevantes, através de contatos diretos com empresas e campanhas de angariação de fundos → p. 237.

 

Efectivamente, como escrevi há um ano, só uma generosa dose de repugnância impedirá qualquer cidadão português alfabetizado de conter uma sonora gargalhada, perante o aviso "texto escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico", inscrito num documento oficial do Governo português”. Agora, no Relatório do OE2015.

Não há estrangulamentos. Felizmente, também não há constrangimentos. 

Continuação de uma óptima semana.


Filed under: acordo ortográfico, economia, política nacional Tagged: antónio lobo antunes, Apuleio, Costa Ramalho, Francisco António de Campos, Helmut Schmidt, heloísa apolónia, José Jorge Loureiro, Maria LUís Albuquerque, OE2015, OEAO, vítor gaspar

Liberdade para Educar

Posted: 15 Oct 2014 12:00 PM PDT

Logo do SPN, concurso de professoresA viagem foi de transporte público e o hospital que a recebeu também. Quem a despachou foi o privado, esse reino maravilhoso dos BES e BPN’s. E, ao contrário de alguns camaradas aqui da casa, nada tenho contra o privado, desde que não funcione à pala dos dinheiros públicos o que, em boa verdade, acontece com quase todos os grupos económicos. Serve esta regra também para a Educação: se há pessoas que querem para os seus filhos uma formação com uma forte dimensão religiosa devem ter o direito de o fazer. Não podem é exigir que seja eu a pagar, isto na base do argumento da direita, o famoso utilizador / pagador.

Não era por aqui que eu queria levar o post, mas saberá o caro leitor que a competência na escrita não é uma coisa matemática. Vamos lá então colocar as palavras no eixo para que vieram ao mundo.

As confusões que Pedro Passos Coelho plantou nos concursos de professores levaram um conjunto de ignorantes a tomar como certo um conhecimento que, manifestamente, não faz parte das suas propriedades e, a ignorância é uma coisa do C….! O concurso teve uma fase nacional que correu bem, uma centrada nas escolas que correu como todos sabem e qual é a proposta que nos chega da direita? Acabar com o concurso nacional ( o que correu bem!) e ampliar o concurso local (o que correu mal).

São muitos e variados os motivos que me levam a defender um concurso nacional, único e onde a graduação seja respeitada. Aliás, partilho de tudo o que aqui foi escrito.

Mas, há uma dimensão que gostaria de desenvolver e que se prende com a autonomia do exercício da profissão.

Uma das marcas que distingue um funcionário privado de um que presta serviço público é a independência que este último deve ter, nomeadamente do poder político. Um médico não pode ser condicionado a escolher a técnica A ou B em função da decisão do político, o que infelizmente acontece mais vezes do que seria desejável. Um funcionário das finanças não pode actuar em função do cartão partidário de quem manda, o que também e tal…

Ora, um Professor não pode estar preso a amarras partidárias, até porque uma parte muito grande dos Diretores das Escolas foi escolhida pelos partidos. As opções que cada um tem para tomar no âmbito do trabalho docente têm que estar completamente submissas aos interesses dos alunos  e nunca aos interesses do poder. E, deixo apenas alguns exemplos:

- os exames nacionais são um erro CRATO e condicionam de forma estúpida todos os processos de ensino e de aprendizagem. Mesmo considerando que estou a fazer mal, tenho que preparar os meus alunos para os fazerem, mas não abro mão de gerir o processo de ensino do modo que acho mais adequado para os alunos e esse, não contempla exames.

- os programas das disciplinas são, nos países decentes, um instrumento estável, em alguns casos, durante décadas. Ora, nós por cá, andamos completamente ao contrário. No caso da matemática, desde 2007, vamos já no terceiro programa. Os alunos que estão no 9º ano passaram por 4 versões diferentes. Perante tanta instabilidade só a independência profissional dos docentes consegue garantir a tranquilidade que os alunos precisam. Isto é, as aulas funcionam, apesar do Ministério da Educação, dito de outro modo, os alunos aprendem porque os professores não ligam às parvoíces que os Ministros publicam. As Escolas funcionam apesar do Ministério da Educação.

- a sociedade exige hoje à escola um conjunto de responsabilidades que, manifestamente, não são património natural desta instituição. Mas, na ausência das famílias e até da própria sociedade, sobra para a escola: sexualidade, ambiente, educação rodoviária, etc…  Parece que é à escola que compete fazer o tratamento de todas estas matérias. Mas, permita-me que o questione, caro leitor: perante um caso, por exemplo, de uma gravidez precoce numa menina com 15 anos, dará prioridade às revisões para o teste ou ao tratamento da questão no contexto da turma?

São estas e outras questões, como os autores a serem escolhidos em Português, as matérias a serem destacadas em História, etc, etc… Um conjunto tão grande de questões que mostram claramente como não é possível tornar o Professor, no seu sentido mais amplo, como um simples assalariado ( e que falta me faz o que me roubam todos os meses) dependente do patrão. A única submissão de um docente só pode acontecer na dependência dos interesses dos alunos.

É esta a Liberdade que Cavaco & Passos querem extinguir.

É esta a Liberdade que os meus alunos exigem!

 


Filed under: educação Tagged: alunos, aprender, autonomia, cavaco, concursos, Crato, educação, ensinar, liberdade, professores

Refeição Social Prato

Posted: 15 Oct 2014 10:58 AM PDT

Quando entrei para a primária era ainda cedo para não alimentar a ilusão de que todos os miúdos tinham uma vida mais ou menos parecida comigo, que, não sendo perfeita, era decente. Logo nos primeiros dias, a chamemos-lhe Paula quis saber o que eu tinha comido no fim-de-semana. Eu disse, ela quis saber detalhes. E ficou estupefacta.

- Tu comes uma fêvera inteira?!

Ela não comia, nunca tinha comido, nem conhecia quem, com a sua idade, o fizesse. Seis anos/  uma fêvera, um rácio que ela nunca se tinha atrevido a imaginar.

Depois dessa, houve muitas. Eu tomava pacotes de leite chocolatado, comia bolas de Berlim, cerejas no tempo delas. Era, eu e metade da turma, um exemplo de privilégio, sem dúvida, naquela pobre escola da zona oriental do Porto.

Nunca se sabe o que nos ficará na memória. Constato que a história da fêvera, já lá vão mais de 30 anos, ainda cá está. E foi nela que pensei quando li este artigo, no Jornal Universitário do Porto, assinado pelo Miguel Heleno.

Assim fiquei a saber que as cantinas da Universidade do Porto têm agora no seu menu aquilo a que chamam a "Refeição Social Prato", a 1,95 euros. São cinquenta cêntimos menos do que a "Refeição Social Completa", que inclui sopa, pão, bebida, prato, sobremesa (fruta, iogurte, doce), e custa 2,45 euros. A "Refeição Social Prato", cuja designação só por si já me faz cócegas no músculo biliar, inclui pão e prato. E ponto, que é como agora se diz no Porto.

Não duvido das boas intenções dos serviços sociais da UP que criaram esta solução, para chamá-la de alguma maneira. Mas que o apoio que neste nosso país se oferece aos estudantes que já não têm 2,45 euros para gastar em cada refeição seja cortar-lhes a sopa e a sobremesa é coisa para dar vómitos a quem ainda tiver coração, cabeça e estômago no sítio.


Filed under: sociedade Tagged: cantinas, miguel heleno, refeição social prato, universidade do porto

Mais uma fábula desmentida pelos factos

Posted: 15 Oct 2014 09:45 AM PDT

Do Expresso desta semana retive esta peça. Não batia certo com qualquer coisa que tinha lido, embora coincida com a minha memória pessoal:

expresso

Hoje ocorreu-me, era isto:

Desde o início dos anos 90, Portugal teve onze ministros da educação. Desses, apenas dois se mantiveram no seu posto por mais de dois anos (Nuno Crato será o terceiro). Poucos são aqueles que sobrevivem politicamente a uma passagem pelo Ministério da Educação (Manuela Ferreira Leite é o maior caso de sucesso, ainda assim relativo e temporário). Os ministros da Educação, de Couto dos Santos a Maria de Lurdes Rodrigues são um alvo permanente de contestação de alunos e professores. A esta situação não é alheio o facto dos professores serem uma das classes profissionais mais bem organizadas sindicalmente e com maior capacidade de reivindicação. O facto de a educação ser um sector fortemente estatizado faz com que os professores tenham ainda mais capacidade negocial.

Carlos Guimarães Pinto, in Porque é que os professores estão sempre a protestar?

Faz parte da prática e teoria do medo: diabolizar sindicatos, trabalhadores, assalariados em geral. Neste caso tratou-se de, através de um conjunto de mentiras em que a premissa começava aqui, lançar a ideia de que os professores têm um poder imenso e os pobres ministros se sujeitam a ele. Nada de novo na frente neoliberal.


Filed under: educação Tagged: fábulas, ministros da educação, neoliberalismo

Até nas desculpas são incompetentes

Posted: 14 Oct 2014 02:31 PM PDT

sorry-excuses1

Nuno Crato garante que no próximo ano lectivo não haverá "experimentalismos". Portanto, deduz-se que este ano lectivo foi preparado em cima do joelho. Isto é no que dá ter mortos-vivos a usurpar o lugar de ministros.

Entretanto o grande objectivo de transformar as escolas em centro de nomeações políticas continua. MLR criou as bases, com o conceito dos directores que carecem de aprovação ministerial, e Crato dá a estocada final.

Foi ainda adiantado pela equipa ministerial que, a partir da próxima semana, serão os directores das escolas TEIP (Território Educativo de Intervenção Prioritária) e com contrato de autonomia que chamarão os professores em falta. [P]

Para completar o circo só falta o cavalheiro da fraca memória que deambula por Belém vir falar da qualidade de não sei quê.


Filed under: educação Tagged: ano lectivo, desculpas, nuno crato

Não tenho certezas e raramente acerto

Posted: 14 Oct 2014 02:00 PM PDT

cavacoO presidente juntou hoje umas frases sobre o concurso dos professores e confirmou, mais uma vez, que é "um génio da banalidade", como dizia José Saramago.

Primeiro, afirmou que é preciso fazer uma "reflexão séria sobre o modelo de colocação de professores". Todos sabemos que não há nada pior do que uma reflexão que não seja séria, como algumas que andam para aí perdidas e vão com qualquer um.

Depois, com a argúcia vácua que o distingue, declarou que "as coisas não correram bem na colocação dos professores." Não há palavra mais reveladora do rigor de alguém do que "coisa". No fundo, é o descanso do ignorante: Houve ali uns problemas na colocação dos professores: deve ter sido uma daquelas coisas que correm mal. Se as pessoas, ao menos, tentassem arranjar coisas que correm bem, mas não…

"Parece que está em vias de resolver-se o problema, mas até este momento já houve atrasos nas aulas e, portanto, os alunos foram prejudicados." silvou, a seguir. Parece-me que não há como o verbo "parecer" para exprimir certezas e para mostrar que se está dentro de um assunto.

Mais silvou Cavaco: "não é a primeira vez que acontecem estas coisas". Estas quê? Coisas, claro. É claro que entre não ser a primeira vez e ser recorrente vai uma certa distância, mas Cavaco fala sobre coisas e diz que parece, pelo que seria ocioso esperar uma demonstração de que os problemas de colocação de professores são recorrentes: bastaria ter pedido uma pequena investigação para descobrir que os problemas surgiram a partir do momento em que alguns ministros quiseram utilizar outros sistemas de colocação de professores.

Mas a cerveja em cima do tolo está reservada para o fim: "Como sabem eu vivi em Inglaterra, tive filhos numa escola, e os problemas na colocação de professores nunca se colocavam. Porquê? Porque penso que havia uma descentralização na colocação de professores e não era tudo resolvido no Ministério da Educação" (sublinhado todo meu).

Parece-me muito bem que os problemas de colocação não se coloquem, mas, mais do que isso, não há nada como dar exemplo para que se faça, finalmente, uma reflexão séria. Como é que se faz, então, uma reflexão séria? Fala-se de uma estadia no estrangeiro e usa-se uma expressão como "penso que", tão reveladora de um conhecimento aprofundado como o verbo "parecer".

Quando Cavaco silva, penso que há coisas que parecem.


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