sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Aventar

Aventar


Nuno Crato disse que há professores que trabalham 14 horas por semana

Posted: 24 Oct 2014 01:18 PM PDT

Há pouco, na televisão, ouvi Nuno Crato vangloriar-se, diante dos deputados da maioria, de que tinha conseguido uma grande poupança no seu ministério.

Apontou como uma das razões para isso o facto de, graças ao programa de rescisões, ter conseguido afastar os professores mais velhos. A propósito destes, afirmou que alguns (ou a maioria, confesso que não me lembro) trabalhavam catorze horas por semana.

O que Nuno Crato deveria ter dito era que há professores que dão catorze horas de aulas por semana, o que decorre das reduções que foram acumulando ao longo da carreira.

Ora, dar catorze horas de aulas por semana não é o mesmo que trabalhar apenas catorze horas, como reconhecerá qualquer pessoa minimamente informada ou que queira sê-lo. Faz tanto sentido como dizer que um jogador de futebol trabalha noventa minutos por semana e, ainda assim, se for titular. Faz tanto sentido como afirmar que um actor trabalha o tempo que leva a representar uma peça. Faz tanto sentido como declarar que um jornalista só esteve a trabalhar o tempo que durou uma entrevista.

Para além disso, actualmente, dar catorze horas de aulas nem sequer é o mesmo que estar catorze horas na escola, uma vez que foi imposto que os tempos de redução sejam aproveitados para realizar outras actividades não lectivas ou alegadamente não lectivas.

Não faltará – como não falta – quem se insurja contra as horas de redução com que os professores são contemplados e haverá quem comemore o facto de serem obrigados a estar na escola, porque não são mais do que os outros.

 Hoje, e para já, interessa-me realçar o facto de termos um ministro que cometeu a mesma imprecisão que qualquer ignorante sobre Educação poderia cometer. Nada disso levará a que a imprensa se interesse pelo assunto e dificilmente obrigará Nuno Crato a pedir desculpa.


Filed under: educação Tagged: escolas, horário de trabalho dos professores, nuno crato, professores

Chomsky e Houaiss: perspectiva, concepção, aspectos e facções

Posted: 24 Oct 2014 12:00 PM PDT

110p

Elements of Linguistic Structure, Noam Chomsky, 1955 © MIT (http://bit.ly/1vRi4OH)

Truly, we live in a world in which people feel entitled not just to their own opinions but their own facts.

Paul Krugman

***

Em qualquer área em que seja usada, tanto no Brasil, como em Portugal ou na África, a língua portuguesa será grafada de uma só maneira. Isso significa que um livro editado em português pode correr todos esses países, porque a ortografia é a mesma

Evanildo Bechara

***

Li recentemente um artigo de 1996, do jornalista brasileiro Ibsen Spartacus (1965-2003), acerca do Roda Viva com Noam Chomsky. Lembrei-me, obviamente, do Roda Viva com Antônio Houaiss (1915-1999), ao qual me referi em 2009 (p. 10), com o conhecido lexicógrafo a admitir o valor diacrítico da letra ‘c’, embora errando o alvo: na palavra ‘actividade’, a letra consonântica ‘c’ tem de facto valor grafémico, sim, mas esse valor não é diacrítico.

Neste registo, com um desempenho teórico francamente melhor, Houaiss esclarece aqueles que não conhecem o sistema ortográfico do português europeu: “[a consoante muda] em Portugal, se escreve para fins de abrir o timbre ou por coerência; como em ‘activo’, eles põem o ‘c’ para dizerem ‘activo’ [aˈtivu], em lugar de dizer *’ativo” [ɐˈtivu]; eles põem esse ‘c’ em ‘acção’, coerentemente, por serem co-radicais”. Depois, acrescenta: “para dizerem ‘optimizar’ [ɔtimiˈzaɾ], eles têm que pôr o ‘p'; ao pôr em ‘optimizar’ o ‘p’para essa função de timbre, automaticamente eles levam o ‘p’ para o cognato ‘óptimo'”.

Muitos anos volvidos sobre estas intervenções de Houaiss, tentei explicar o porquê do 'c' de 'acção'. Tendo a letra consonântica 'c' uma "função distintiva (própria), como a de um (sinal) diacrítico, exercendo a mesma função de marcação ortográfica de um acento, instruindo relativamente à não alteração do timbre da vogal a que a precede", dificilmente poderemos aceitar uma explicação de cariz meramente morfológico ou etimológico para justificar a manutenção do 'c' de 'acção' — o conceito "radical" é adoptado para se definir, em Morfologia, um dos três vértices da estrutura de base das palavras e o conceito "raiz" é utilizado, como defende Graça Rio-Torto, para a definição de uma estrutura etimológica indecomponível. Faço notar igualmente que "não alteração do timbre da vogal" é diferente de "para fins de abrir o timbre". É exactamente como uma porta que se pretenda aberta, uma cunha e uma chave: enquanto a cunha impede que a porta se feche, a chave serve para abrir a porta .

Descubra as diferenças:

cunha

© António Varela e João Paulo Rodrigues (http://bit.ly/1tjCnSy)

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via Cambridge Journals (http://bit.ly/1D0jwx7)

Segundo Houaiss, “eles têm que pôr o”, “se escreve em Portugal, para”, “eles põem para dizerem”. Então, suprime-se? Porquê? Citando José Mourinho, ¿por qué? Sim: ¿por qué? Segundo Houaiss, “porque foi a regra impeditiva da unificação ortográfica durante muito tempo”. “Unificação ortográfica”, note-se. Aliás, repita-se, sublinhe-se e saliente-se: “unificação ortográfica“.

Quanto à inspiração teórica de Houaiss, durante esta semana, houve uma notícia do Expresso a corroborá-la. Na ressaca do “auf Wiedersehen, goodbye, au revoir, adeus” de Durão Barroso, o Expresso debruçou-se sobre um discurso do ainda presidente da Comissão Europeia, “numa livraria em Estrasburgo” — para os interessados no nome da livraria, foi na excelente Kléber.

No texto introdutório, podemos efectivamente ler:

Barroso1

Contudo, no desenvolvimento da notícia propriamente dita, encontramos a letra consonântica ‘c’ quer no feminino de ‘activo’ , quer em ‘actividade’. Isto é, temos grafias que permitem dissipar as dúvidas que o texto introdutório suscitara. De facto, estamos claramente perante uma redacção portuguesa europeia.

Barroso2

Regressando a Noam Chomsky e à entrevista, a excelente transcrição (que inclui a correcção de um *Bethune, que surge nas legendas) é suficiente para se perceber que o prestígio internacional da língua portuguesa não melhora através do Acordo Ortográfico de 1990 e que Houaiss se esqueceu de acrescentar que o sistema iria provocar dissensões. Quem se der ao trabalho de ler a transcrição irá tropeçar em ‘perspectiva’, ‘perspectivas’, ‘concepção’, ‘aspectos’ e ‘facções’. Além da ‘perspectiva’, das ‘perspectivas’, da ‘concepção’, ‘dos aspectos’ e das ‘facções’ (como sabemos, palavras muito frequentes), há evidentemente ‘contatos':

Ela tem muitos aspectos positivos e negativos também. A comunicação pela internet estabelece contatos entre pessoas que, de outro modo, estariam isoladas, mas também isola as pessoas.

Aproveitemos esta citação, para um pequeno interlúdio, lembrando as palavras de Bechara: “a língua portuguesa será grafada de uma só maneira“.

Convertamos o trecho para AO90 (português europeu):

Ela tem muitos aspetos positivos e negativos também. A comunicação pela internet estabelece contactos entre pessoas que, de outro modo, estariam isoladas, mas também isola as pessoas.

Agora, em português do Brasil, mas com as regras do AO90:

Ela tem muitos aspectos positivos e negativos também. A comunicação pela internet estabelece contatos entre pessoas que, de outro modo, estariam isoladas, mas também isola as pessoas.

Depois do interlúdio, continuemos.

Não fazendo ‘fato’ (na acepção de “algo cuja existência pode ser constatada de modo indiscutível”, cf. Houaiss) parte da realidade grafémica portuguesa europeia, a verdade é que, no Diário da República,  há quem veementemente continue a discordar, como se comprova pelos 5 (exactamente: CINCO) “Menção de que o requerente declara serem verdadeiros os fatos constantes da sua candidatura” que surgem na edição de 21 de Outubro passado.

Ao contrário daqueles fatos, de facto, ‘perspectiva’, ‘perspectivas’, ‘concepção’, ‘aspectos’ e facções’ fazem parte da realidade grafémica portuguesa europeia e foram reduzidas pelo Acordo Ortográfico de 1990 a obscuras ‘perspetiva’, ‘perspetivas’, ‘conceção’, ‘aspetos’ e ‘fações’ (exactamente, Fação, essa nossa velha conhecida). As grafias ‘perspectiva’, ‘perspectivas’, ‘concepção’, ‘aspectos’ e ‘facções’, adequadas segundo as luminosas leis que descrevem a ortografia portuguesa europeia no seu estado actual, passam a ser, como sabemos, exclusivas do português do Brasil, à sombra do Acordo Ortográfico de 1990.

¿Por qué?

E agora? Agora? Agora, desejo-vos um óptimo fim-de-semana.


Filed under: acordo ortográfico Tagged: antônio houaiss, chico buarque, Chomsky, durão barroso, evanildo bechara, houaiss, Ibsen Spartacus, José Mourinho, Kleber, milton nascimento, Paul Krugman

Em modo coimbrinhas

Posted: 24 Oct 2014 09:08 AM PDT

Cadelas apressadas parem filhos cegos, ou de como um autarca ou é cego ou nem quer ver.


Filed under: curtas Tagged: coimbra, s-justa-a-velha, terreiro da erva

Isto não é liberalismo, é proxenetismo…

Posted: 24 Oct 2014 07:47 AM PDT

É o que me ocorre dizer a propósito deste post. Se o Hospital necessita contratar a mão de obra dos enfermeiros e está disposto a pagar 1200 Euros por 40 horas de trabalho semanais, não precisa contratar intermediários. Abre contratação e resolve o assunto. Caso a necessidade não seja permanente, existem soluções previstas na legislação, como a prestação de serviços. E provavelmente ainda reduzirá custos, pois se existem profissionais dispostos a trabalhar por 510 Euros, seguramente poderiam ser contratados abaixo dos 1200 Euros com ganhos reais para todas as partes, eliminando o intermediário. Nem vou entrar na discussão do valor, 510, 1200, poderia ser outra função e estarmos a falar de 5000, aqui importa sobretudo discutir o princípio. Este tipo de concursos é propício ao favorecimento de clientelas e desperdício de dinheiro público. Se averiguarmos bem estas empresas, acabamos por descobrir que pertencem a algum amigo do político X ou Y, têm ao seu serviço colaboradores ligados aos partidos… Isto nada tem a ver com liberalismo ou capitalismo, isto é outra coisa, bem mais feia de adjectivar!


Filed under: economia, sociedade Tagged: estado

Uma pequena nuance

Posted: 24 Oct 2014 12:00 AM PDT

Neste artigo refere-se uma resolução aprovada no Conselho de Ministros que autorizou uma despesa de até 37 milhões de euros para suportar os custos da denúncia, decidida há dois anos, da participação de Portugal no programa de compra de helicópteros NH90.

A notícia é portanto plantada para mostrar como o governo de Passos Coelho cortou numa despesa considerável,  “superior a 450 milhões de euros”, apesar de ainda o ter feito gastar umas dezenas de milhões de euros, pode ler-se nas entrelinhas.

Acontece que há uma pequena nuance.

Segundo o Governo, a estes custos acresceriam encargos com o apoio logístico e manutenção dos dez helicópteros NH90, “entre 2012 e 2028, de mais de 180 milhões de euros, num total nunca inferior a 580 milhões de euros”.

Acontece que o contrato era para compra de quatro helicópteros, com opção de a alargar até aos dez.

Isto muda um bocadito as contas, não muda? Ah!, não faz mal. O que importa é mostrar que este governo está a apagar fogos herdados. Que conveniente.

Porquê deturpar uma coisa tão simples? Broncos que nem sabem o que é que estão a colocar num comunicado? Ou manipulação básica para encher uma suposta imagem, que nem está próxima de exacta? (*) Venha o diabo e escolha.

E se há um erro grosseiro, quantos mais haverá? Será que se pode confiar na informação divulgada pelo governo? Enfim, as perguntas retóricas poderiam continuar.

Dava jeito que os jornalistas fossem além do corte e costura dos comunicados dos gabinetes. Sei lá, fazerem… jornalismo e verificarem o que é escrito. Porque para ler comunicados pode-se ir directamente à fonte, à página do governo.

* Com tempo, um dia detalharei este assunto.


Filed under: política nacional Tagged: Defesa, nh90

Literally reality show

Posted: 23 Oct 2014 06:00 PM PDT

Para muito boa gente que por ai anda. Uns emigram, outros desenrascam-se, alguns têm sorte e poucos conseguem furar o sistema e sobem alto de forma honesta. Há também um conjunto significativo que tem tachos. Tachos que crescem e se multiplicam, pirâmide acima, pirâmide abaixo. Tachos sem cortes, reestruturações ou limites orçamentais. Tachos imunes à austeridade. Tachos que como baratas sobrevivem ao cataclismo nuclear da crise. Tantos tachos que fica difícil saber quantos são. Sabemos apenas quem os paga. Que fáceis que somos.


Filed under: sociedade Tagged: desemprego, formação, reality show, tachos

Empreendedorismo é enfermeiros receberem 3,1 euros por hora

Posted: 23 Oct 2014 03:58 PM PDT

Segundo o Diário de Notícias, o Centro Hospitalar do Médio Tejo entrega à empresa Sucesso 24 Horas 1200 euros mensais por cada enfermeiro colocado pela dita empresa. No referido centro hospitalar, estão a trabalhar oito enfermeiros contratados nessas condições.

Os enfermeiros, para receberem 510 euros mensais (que a Sucesso 24 Horas tira dos 1200 que recebe), têm de trabalhar 40 horas por semana.

É uma história edificante: um hospital precisa de enfermeiros. Como, por alguma razão, não os pode contratar, paga 1200 euros a uma empresa para fazer aquilo que o hospital não pode fazer. Por razões fáceis de entender, há enfermeiros dispostos a receber 510 euros para trabalhar 40 horas por semana.

Contas feitas, o Estado gasta 1200 euros por cada enfermeiro e os enfermeiros, profissionais altamente diferenciados, recebem muito abaixo da tabela. A Sucesso 24 Horas ganha 690 euros por cada enfermeiro que consegue contratar para trabalhar por um valor próximo do ordenado mínimo. Convém não esquecer que a Sucesso 24 Horas é uma empresa especializada em prestação de serviços na área da saúde.

Não faltará quem diga que sempre estão melhores do que as enfermeiras que trabalhavam a troco de comida.

Aí está o empreendedorismo em todo o seu esplendor. É claro que estes enfermeiros não fazem greve: deve ser porque não sentem a mínima revolta.


Filed under: sociedade Tagged: Centro Hospitalar do Médio Tejo, dívida pública, Enfermeiros, exploração, hospitais, parasitismo, saúde, Sucesso 24 Horas

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