domingo, 19 de outubro de 2014

Aventar

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Professores e a desORDEM

Posted: 19 Oct 2014 09:00 AM PDT

Lugares comuns há muitos e são sempre um ponto de vista respeitável até porque, por definição, são vistos a partir de um ponto. Entendo a existência de imensos lugares comuns entre os  professores porque, numa classe com cem mil pessoas, há sempre uns mais esclarecidos que outros.

E um dos lugares mais comuns é o da necessidade de existir uma Ordem Profissional para que a classe se possa mostrar mais unida. É um argumento que, por inexistência de prova, pode ser apresentado, mas a classe, sem Ordem, já deu vários sinais de unidade nos últimos anos. A greve aos Exames o ano passado foi o mais recente.

Ora, neste lugar comum da ordem, parece-me que os professores se esquecem de duas coisas:

a) há profissões com Ordem que continuam a ter sindicatos porque as questões sócio-profissionais são discutidas com os sindicatos e não com a Ordem. Quase todas as questões que os professores colocam são da esfera sindical e não da Ordem. Isto, de acordo com a Lei.

b) a Ordem tem duas funções fundamentais: auto-regular a profissão e mediar a relação entre o prestador de serviço e o cliente. Isto é, um médico trata com o seu sindicato as questões laborais que tem com o Ministério ou com a Clínica Privada, mas na sua esfera de actividade com o paciente, aí surge a Ordem para mediar.

No caso dos professores, por ausência de clientes, nenhuma destas questões se coloca. Parece-me, pois, que não há qualquer enquadramento legal para a existência de uma Ordem entre os Professores porque, repito, os pontos que se colocam são da esfera laboral (concursos, horários, componente lectiva, etc…)

Mas, para azar dos lugares comuns, apareceu em cena um senhor que fez copy past e que se esqueceu da origem na área de transferência.

Ao contrário do que alguns dizem, não vamos, nas escolas, sentir qualquer falta do EX. O EX é um senhor que um dia fez o curso de Professor e que depois andou a saltitar de gabinete em gabinete até ao salto final que algumAs, coitadAs, sonhavam ser a cadeira de sonho. Não foi e não será.

Foi com ele que as turmas subiram para 30 alunos, foi com ele que os meninos com necessidades educativas especiais deixaram de ter apoios.

Foi com o EX que a PACC entrou. A PACC era (é?) o instrumento fundamental do EX porque com o exame realizado tinha o dispositivo que precisava para controlar o acesso à profissão e assim abrir as portas à Ordem.

Se a ordem que ele queria criar com a Ordem foi esta DESordem, então eu prefiro que o sistema educativo fique sem Ordem para que a Ordem, de facto, seja uma realidade nas nossas escolas.


Filed under: educação, vária Tagged: nuno crato, ordem, plagiar, professores, secretário de estado, sindicatos

As estranhas “poupanças” do Governo (ou o negócio da caridade)

Posted: 19 Oct 2014 05:01 AM PDT

caridadezinhaCarlos de Sá

Este governo tão “liberal” a privatizar e vender todo o património do Estado ao desbarato, afinal tem tiques estalinistas: o cuidado de cidadãos que precisam da ajuda de outros para o seu dia-a-dia é, no entender dessa gente, monopólio das instituições (particulares, embora) de “solidariedade social”.
A essas IPSS, o Estado paga 950 Euros por mês e por pessoa, e as IPSS (meu Deus, como são “solidárias”!) ainda ficam 85% dos rendimentos (a pensão de reforma ou de sobrevivência, na maior parte dos casos) dos internados. Já se os deficientes pretenderem ficar na sua própria casa, o mesmo Estado “ajuda-os” com 178 euros. Tudo muito bem explicado nesta excelente peça do Público.
Vistas assim as coisas, o governo não tem, afinal, nenhum tique estalinista; está apenas a engordar a sua clientela política: o negócio da “solidariedade”, melhor dizendo da caridadezinha, envolve muitos milhões e paga o conforto de que geralmente se rodeiam os dirigentes das instituições ditas de “solidariedade social”, a maioria das quais geridas pelas “Misericórdias” ou pela Igreja Católica Romana.
Também a galopada deste governo contra os beneficiários do Rendimento Social de Inserção teve como finalidade justificar o aumento do “auxílio” às novas sopas-dos-pobres. Assim se retira o pouco que restava da dignidade dos cidadãos carenciados, para alimentar a clientela política.
Não é por acaso que o actual secretário de Estado é Agostinho Branquinho, o ex-deputado que ficou esclarecido acerca da Ongoing depois daquela empresa o ter convidado para administrador, por dois curtos anos, na sua sucursal brasileira. No momento da sua nomeação, Branquinho era administrador da Santa Casa da Misericórdia do Porto, onde estava desde que tinha regressado do Brasil.


Filed under: sociedade Tagged: caridade, carlos de sá, ipss

A mercantilização da medicina e a gestão economicista da Saúde

Posted: 19 Oct 2014 02:18 AM PDT

transformam os hospitais em linhas de montagem de fazer doentes para a morte. Mal chegam e lhes são retiradas as roupas, os doentes (e não disse clientes) «começam a perder a sua identidade; passados uns dias, mergulham num corpo passivo». Nos EUA, como em Portugal. Ora leiam.


Filed under: curtas, sociedade Tagged: diagnósticos, mercantilização dos cuidados de Saúde, relação médico/doente, saúde, serviço nacional de saúde

A uma heroína anónima

Posted: 19 Oct 2014 02:00 AM PDT

Fotografia retirada da página online do Público

Fotografia retirada da página online do Público

Não ficará para a História da nação.

Ficará certamente na pequena história familiar, talvez a mais importante de todas, e principalmente na história dos quatro irmãos mais novos que salvou antes de voltar a entrar naquele maldito apartamento e o seu corpinho ser, desafortunadamente e injustamente, roubado de toda a vida. Será falada na família como uma heroína. Será contada aos sobrinhos que talvez lhe venham a dar e que nunca chegou a conhecer, da forma falaciosa que as nossas memórias nos fazem reviver momentos passados.

É verdade, desta menina a História nunca rezará e, no entanto, ela fez algo que muitos adultos não fariam. Soube dela através de uma rede social, pela escrita do meu compadre. Li e compadeci-me com a injustiça de tudo isto. Decidi naquele momento que escreveria sobre esta menina, mas faltam-me as palavras. O pouco que sei a seu respeito, li-o nas notícias que se fizeram sobre esta tragédia. Li aqui, aqui e aqui. Li em blogues. Procurei informação. Há muito pouca. Hoje li um desabafo de uma pessoa tão chocada como eu, que se insurgia contra o silêncio em volta desta morte prematura e desnecessária.

Não sei o que dizer. Se, como tudo o que li indica, esta menina e os seus irmãos são filhos de uma família desestruturada, se são vítimas de negligência, se, como algumas vizinhas testemunharam, este desfecho estava previsto mais cedo ou mais tarde, é toda a sociedade que falha. Falharam os mecanismos de apoio a esta família ou a estas crianças.  Os sobreviventes terão, talvez, agora a atenção e os cuidados que deveriam ter tido há mais tempo. A pequena heroína, essa, terá vivido para salvar a família e mais nada. Nenhuma justiça lhe poderá ser feita jamais.

O tal silêncio que incomoda poderá ser o resultado deste mau-estar colectivo. Estamos todos implicados. Hoje (na 6ª feira) foi ela, mas quantas crianças há, até perto de nós, nas quais nem sequer reparamos no dia-a-dia? Acontece uma tragédia destas e sentimos-lhe o peso. Sentimos que algo deveria ter sido feito. Sentimos que falhámos.

Quando morre uma criança com cancro ou outra qualquer doença horrível e fatal, é fácil sermos solidários, enveredarmos por manifestações bonitas e poéticas. É fácil escrevermos mensagens de esperança, partilharmos estados bonitos e bem escritos do Facebook. Nestes casos, estamos de consciência tranquila. Ajudámos no que podíamos, com mensagens de força e coragem, com dinheiro, simplesmente (para quem acreditar) rezando. As pessoas sentem que fizeram algo, mas que a inevitabilidade da morte foi mais forte, mesmo que tendo chegado cedo de mais. A morte chega sempre cedo de mais para todas as crianças que se vão deste mundo. Num caso como o da Samira (não sei se era de facto este o nome dela, mas li-o numa das notícias), poucas pessoas fizeram alguma coisa. Os vizinhos, talvez, que apresentaram queixa à CPCJ ou à Segurança Social. Mas os mecanismos de protecção destas crianças, que deviam funcionar como uma engrenagem bem oleada, falharam. Como certamente falham muitas vezes. Quase que aposto, até, que falham cada vez mais. Porque este país é cada vez menos para jovens em situação de risco, ou simplesmente para jovens sem amigos importantes, do mesmo modo que este país não é para velhos, nem doentes, nem deficientes.

E tenho a certeza que a justiça também não será para esta heroína que perdeu a vida salvando os irmãos. Mesmo que fosse feita justiça, ela nunca seria realmente feita, mas quase aposto que nem essa justiça de tribunal chegará alguma vez à família que perdeu uma das suas. Mais uma vez, estamos perante um infortúnio, uma tragédia e nada daqui sairá. Fiquemo-nos pela lamúria.

Descansa em paz, pequenina!

 


Filed under: sociedade Tagged: CPCJ, heroína de 13 anos, Morre ao salvar irmãos, negligencia, Samira, segurança social

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