Aventar |
| Posted: 26 Oct 2014 08:43 AM PDT
Finalmente, há até quem festeje aquele truque do descongelamento das reformas do sector privado. “60 anos e 40 de serviço? é justo; até que enfim que fazem alguma coisa de jeito” – dizia, há pouco, um nosso concidadão, entre dois golos de cerveja. Erro. É mais um “troiano”, um “presente grego”( a referência é clássica, nada com os actuais gregos – excepto, talvez, os seus taxistas). É que o nosso alegre cidadão não sabe ainda que a “prenda” vem acompanhada de uma penalização de 36%, fora os apêndices. Esta medidas são a cara chapada destes artistas, émulos da bruxa má da Branca de Neve. O pior é que ainda há quem se tente pela maça envenenada. Nestes tempos de enganos, lembrai-vos prudentemente das palavras do avisado sacerdote Laocoonte, quando os troianos se aprestavam a tomar posse do famoso cavalo de madeira: “Míseros cidadãos, quanta insânia! (…) Troianos (portugueses, digo eu), seja o que for, há dano oculto: desconfiai do monstro! Temo os gregos (os governantes, na minha versão) mesmo quando dão presentes!” (Virgílio, “Eneida”). Filed under: economia, política nacional |
| Posted: 25 Oct 2014 03:18 PM PDT A comunidade islâmica do Canadá está receosa. E tem razão para o estar depois dos crimes cometidos por simpatizantes dos radicais islâmicos no Quebeque e em Otava. Martin Couture-Rouleau, de 25 anos, ao atropelar dois soldados num parque de estacionamento na província francófona, tendo morto um deles, e Michael Zahaf Bibeau, de 32 anos, ao abater a tiro o soldado que fazia a guarda de honra do Soldado Desconhecido, na capital federal, invadindo depois o parlamento, tendo no final sido ambos abatidos a tiro pelas forças de segurança, quebraram uma maneira de viver nacional feita de respeito pela diversidade e pela tolerância. Segundo país maior do mundo, depois da China, apenas com 35 milhões de habitantes, ocupando lugar de destaque entre os países com melhor qualidade de vida, o Canadá é um país onde têm vivido em harmonia, respeito e dignidade, pessoas oriundas de 190 países. É um país feito por imigrantes, onde tem sido possível respirar em paz e segurança. Ao contrário do melting pot americano (ou mesmo brasileiro), o multiculturalismo praticado pelo Canadá saldou-se pela positiva na inteira liberdade com que cada grupo étnico pode ter as suas escolas, clubes, religiões e culturas. Tudo isto aliado ao facto de o povo canadiano ser simpático, afável, generoso e comunicativo, fez do Canadá um oásis de bem estar e um destino apetecido de todos aqueles a quem os governos dos seus países trataram mal. Na verdade, o Canadá, que é de seu natural discreto e modesto, tem sido uma grande aldeia onde as pessoas se sorriem e saúdam, ao cruzarem-se nas ruas, mesmo sem se conhecerem. Nas escolas do Canadá o civismo é transmitido de forma natural. Considero uma experiência forte ter passado pelas escolas canadianas nos meus primeiros anos de estadia neste país. Ali, alunos de todos os extractos sociais e raças aprendiam, de par com a língua, a viver serenamente uns com os outros, a saberem dos seus deveres e direitos. Lembro nitidamente um dia em que todas as mulheres estudantes foram convidadas a encher um vasto salão para ouvirem informação e ensinamento ministrado por um advogado, uma assistente social e um chefe da polícia. Tratava-se de alertar para a violência doméstica, severamente punida no Canadá, e de ensinar a preparar um kit para o caso de fuga, sozinhas ou com filhos, locais e números de telefone onde se dirigirem, informar sobre os abrigos que as receberiam, as profissões que podiam aprender, os serviços jurídicos com que podiam contar. Lembro igualmente outro dia em que a aula foi de ensinar os imigrantes a defenderem-se de senhorios desonestos e invasivos. E tudo isto com a maior abertura, sem que o professor anglo-saxónico puxasse a brasa à sua sardinha. Mas também lembro aquele rapaz de Haifa, na Palestina, muito moreno e de olhos claros, que falhou umas aulas e apontamentos e me pediu ajuda nas vésperas de um teste, a quem eu pude dar todo o material de que dispunha, explicando-lhe uma coisa ou outra. Safou-se bem no teste e e veio ter comigo nestes termos: "Nunca mais me vou esquecer que tu me ajudaste. Se algum dia o teu povo precisar de ajuda, diz-me que eu faço o que for preciso". Achei tão exagerado que me permiti perguntar: "E que podes tu dar ao meu povo?". Sem pestanejar, respondeu: "Arranjo armas". Senti-me gelar, mas não perdi a compostura: "Armas, donde? De Israel?". Que não, garantiu-me, mas sim da (então) União Soviética. Pensei num relâmpago "eles afinal estão cá dentro". Com o tempo viria a saber que também cá está a máfia italiana, a máfia chinesa, a máfia russa e a máfia judaica, todos a fazer pela vida de modo subterrâneo. E, portanto, achei natural que seja tão poderosa a Real Polícia Montada do Canadá (RCMP), feita de vários departamentos, do serviço de fronteiras ao criminal, da espionagem à contra-espionagem. Nem me impressiona nada saber que, discretamente, vigia o país de alto a baixo. Não é uma pide rafeira e boçal, ao serviço de uma ditadura, invadindo casas, torturando pessoas, estragando vidas. Nem é uma secreta piroleira que rouba informação para vender a empresas, pelo caminho denunciando quem não é da cor do governo, como acontece em algumas democracias mal amanhadas. A RCMP é um instrumento de defesa nacional, igual à de vários países civilizados. Mas a rede policial tem, pelos vistos, malha por onde passaram os dois criminosos acima citados, que trazia debaixo de olho por delitos comuns e declarada simpatia pelos radicais islâmicos, mas sem prever que podiam ser tão perigosos esses dois filhos do Canadá. Infelizmente, não serão caso único nem último. Estamos perante um facto consumado: jovens de vários países, moralmente aleijados, juntam-se ao grupo de assassinos que degolam, raptam, torturam, roubam armas, traficam droga, para erguerem um Califado. São, todos eles, nem mais nem menos, assassinos sanguinários que, para ficarem bem no retrato, afirmam que fazem o que fazem em honra de Alá. Para se encharcarem bem de sangue alheio e não meterem um bala na própria cabeça, em horas de reflexão, precisam desta muleta. Praticam o ódio em nome de Deus. Enganam-se a si mesmos porque, depois do que está à vista, não sei como é que alguém se pode considerar enganado por eles. Portanto, o destino desta seita está traçado. É uma questão de tempo. As generalizações são sempre injustas. Temos de ser fortes e lúcidos, reconhecendo que há um elevado número de muçulmanos moderados, decentes, normais, que precisamente por sê-lo têm sido cruelmente perseguidos por aiatolas e talibãs, acabando por se expatriar. Também eles são vítimas dos radicais islâmicos. As maiores vítimas, sublinho, são as mulheres e as crianças, a quem os radicais escravizam, prostituem, vendem como gado. É de elementar inteligência e boa vontade, ajudá-los a retomar uma existência digna nos seus países de origem. Até agora, no Canadá, todos temos entendido isto. Mas crimes como os que ocorreram no Quebeque e em Otava, podem fazer as pessoas mudar de ideias. É o que a comunidade islâmica receia. É o que todos não desejamos que aconteça. Portanto, resignemo-nos à realidade: o Canadá passa a viver com mais cuidado e atenção. Filed under: crónicas, sociedade Tagged: canadá, comunidade islâmica |
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